Ladrão de Almas
Ladrão de Almas
Meu nome é Luke, Dr. Luke
Findley. Sou um dos plantonistas do pronto socorro da cidade. Naquela noite eu
estava tendo um plantão absolutamente normal quando Lanny chegou escoltada pelo
Xerife. Fiquei intrigado, maravilhado e ao mesmo tempo perplexo. Eu não conseguia
entender como, nem por que aquela mulher tão linda havia se metido em tamanha
confusão. Ela confessou um assassinato!
- Mas como? Perguntei.
- Ele pediu que você o matasse?
Mas quem em sã consciência mata alguém a pedidos?
Será uma louca? Ela me disse que
não é uma pessoa normal. E eu logo respondi.
- Com certeza você não é! Como
você pôde matar alguém?
- Você não entende! Ela respondeu.
Subitamente Lanny pegou um
bisturi que eu havia guardado na maleta de primeiros socorros e apontou para si
mesma.
-Não! Não faça isso! Eu gritei
para que parasse.
Mas era tarde de mais! Ela se cortou
profundamente. E quando olhei para a cicatriz, fiquei impressionado! Eu não
podia acreditar no que via. O corte profundo estava cicatrizando sozinho, como
num passe de mágica. Naquele momento vi que realmente eu não estava diante de
alguém normal e resolvi ouvir o que ela tinha a dizer. O Xerife estava decidido.
Ela havia morto uma pessoa e tinha que ser punida. Mas, inexplicavelmente, eu
estava me sentindo muito atraído por ela. E eu resolvi ajudá-la. Não sei o que
deu em mim, mas eu ajudei Lanny a fugir. Uma pessoa suspeita de assassinato.
Agora que ela me contou toda a sua história, eu estou me sentindo absolutamente
seduzido por essa mulher totalmente misteriosa. Acho que eu também já não sou
mais uma pessoa normal.
Sinopse
No turno da noite em um hospital em Maine, Dr. Luke Findley espera ter outra noite tranqüila com lesões causadas pelo frio extremo e ocasionais brigas domésticas. Mas no momento em que Lanore McIlvrae — Lanny — entra no pronto-socorro, ela muda a vida dele para sempre. Uma mulher com passado e segredos misteriosos, Lanny não é como outras pessoas que Luke já conheceu. Ele é, inexplicavelmente, atraído por ela... mesmo ela sendo suspeita de assassinato. E conforme ela conta sua história, uma história de amor e uma traição consumada que ultrapassa tempo e mortalidade, Luke se vê totalmente seduzido.
Seu relatório apaixonado começa na virada do século XIX na mesma cidadezinha de St. Andrew, Maine, quando ainda era um templo Puritano. Consumida, quando criança, pelo amor que sentia pelo filho do fundador da cidade, Jonathan, Lanny qualquer coisa para ficar com ele para sempre. Mas o preço que ela paga é alto — um laço imortal que a prende a um terrível destino por toda a eternidade. E agora, dois séculos depois, a chave para sua cura e salvação a depende totalmente de seu passado.
De um lado um romance histórico, de outro uma história sobrenatural, The Taker é uma história inesquecível sobre o poder do amor incondicional não apenas para elevá-lo e sustentá-lo, mas também para cegar e destruir — e como cada um de nós é responsável por encontrar o próprio caminho para a redenção.
Informações:
Literatura Extrangeira
Romance
Autor: Alma Katsu
Editora: Novo Conceito
Acabamento: Brochura
Número de páginas: 432
Editora: Novo Conceito
Acabamento: Brochura
Número de páginas: 432
Leia o primeiro capítulo:
1
Maldito frio congelante. A
respiração de Luke Findley pairano ar, quase sólida, na forma de um ninho de
vespa congelado e destituído de oxigênio. Suas mãos estão pesadas sobrea
direção; ele está grogue, acordou em cima da hora de fazer o percurso até o hospital
para assumir o turno da noite. Os campos cobertos de neve dos dois lados da
estrada são pinceladas fantasmagóricas de azul sob o luar; seus lábios azulados
estão quase insensíveis pela hipotermia. A neve é tão espessa que encobre todos
os vestígios de galhos espinhentos, que geralmente permeiam os campos e dão ao
lugar uma falsa aparência de calma. Ele sempre se pergunta por que seus
vizinhos continuam vivendo nesse ponto tão ao extremo norte do Maine; solitário
e frígido, um lugar difícil para a agricultura. O inverno reina durante metade
do ano, forma pilhas de neve nos parapeitos das janelas e solta lufa das de
vento enregelantes sobre a plantação de batatas.
Vez ou outra alguém realmente congela e,
como Luke é um dos poucos médicos da região, já presenciou a cena. Um bêbado (o
que mais há em St. Andrew) pegou no sono sobre a neve e, pela manhã, havia se
tornado um picolé humano. Um menino, patinando sobre o rio Allagash, caiu em um
buraco que se abriu quando passou pela camada mais fina do gelo. Às vezes, o
corpo é encontrado na metade do caminho para o Canadá, no encontro do rio
Allagash com o rio St. John. Um caçador perde a visão por causa do reflexo da
neve e não consegue sair da Floresta Great North; seu corpo é encontrado
sentado, recostado em um tronco, a espingarda sobre o colo, sem uso.
— Aquilo não foi acidente, que nada! —
Joe Duchesne, o xerife, disse a Luke, desgostoso, quando o corpo do caçador foi
levado ao hospital. — O velho Ollie Ostergaard, ele queria mesmo morrer. Este
foi o jeito dele de cometer suicídio. — Mas Luke suspeita que, caso fosse
verdade, Ostergaard teria atirado na própria cabeça. Hipotermia é um processo
lento de morte, dá tempo suficiente para reconsiderar qualquer decisão.
Luke estaciona a caminhonete em um lugar
vazio do estacionamento do Hospital Municipal de Aroostook, desliga o motor e
promete a si mesmo, mais uma vez, que se mudará de St. Andrew. Ele só tem que
vender a fazenda de seus pais e, então, se mudará, ainda que não saiba
exatamente para onde. Suspira, tira as chaves da ignição e se dirige à entrada da
sala de emergência.
A enfermeira de plantão o
cumprimenta com a cabeça enquanto Luke entra tirando as luvas. Ele pendura a
parca no pequeno vestiário dos médicos e volta para a recepção. Judy diz:
— Joe ligou. Está trazendo um prisioneiro,
quer que você dê uma olhada nele. Vai chegar a qualquer minuto.
— Motorista de caminhão?
Quando há problema, geralmente envolve um
dos motoristas das empresas madeireiras. São famosos por ficar bêbados e
provocar brigas no Blue Moon.
— Não. — Judy está absorta em algo que
está fazendo no computador. A luz do monitor reflete em seus óculos bifocais.
Luke limpa a garganta querendo chamar a
atenção dela.
— Quem é, então? Alguém daqui? — Luke está
cansado de costurar seus vizinhos. Parece que só os desajustados, bêbados e
briguentos conseguiam tolerar aquela cidade miserável. Judy tira os olhos do
monitor, cotovelo plantado no quadril.
— Não. Uma mulher. E também não é daqui.
Isso é incomum. Mulheres raramente são
trazidas pela polícia, exceto quando são as vítimas. De vez em quando, uma
esposa da cidade é trazida após uma briga com o marido ou, no verão, uma
turista pode perder o controle no Blue Moon. Mas, nessa época do ano, não há
nem sinal de turis-tas. Algo diferente para se esperar esta noite. Ele pega uma
prancheta.
— Ok. Que mais temos aqui? — Luke ouve
mais ou menos enquanto Judy lista a atividade do turno anterior. Ele volta para
o vestiário para esperar pelo xerife. Tinha sido uma noite bem movimentada,
mas, agora, dez da noite, está tranquilo. Não consegue aguentar outro relatório
sobre o casamento da filha de Judy, que está prestes a acontecer, um discurso
interminável sobre o preço de vestidos de noiva, serviço de buffet e floristas.
— Diga a ela pra fugir com o noivo. — Luke
disse uma vez para Judy, que o olhou como se ele tivesse declarado ser membro
de uma organização terrorista.
— O casamento é o dia mais importante da
vida de uma jovem — Judy respondeu em tom de zombaria. — Você não tem
umvanuromântico no seu corpo. Não é à toa que Tricia se divorciou de você.
— Tricia não se divorciou de mim; eu me
divorciei dela.
Ele parou de explicar, pois ninguém lhe dá
atenção. Luke senta-se no sofá surrado do vestiário e tenta se distrair com um
Sudoku. Mas não consegue e pensa no caminho para o hospital naquela noite, as
casas pelas quais ele passara nas estradas desoladas, luzes solitárias
queimando na noite. O que as pessoas fazem enfiadas em suas casas por tantas
horas nas noites de inverno? Como médico da cidade, não há segredos que Luke
não conheça. Ele sabe e todos os
pecados: quem bate na esposa, quem tem a mão pesada com as crianças; quem bebe
e termina batendo o caminhão nummonte de neve; quem tem depressão crônica em
razão de outro ano ruim na colheita, sem perspectiva no horizonte. As florestas
de St. Andrew são escuras e cheias de segredos; lembram a Luke por que quer ir
embora desta cidade: está cansado de saber os segredos dos outros e de que eles
conheçam os seus.
Além disso, tem outra coisa, algo em que,
ultimamente, ele pensa assim que pisa no hospital. Não faz muito tempo que sua
mãe morreu e ele se lembra vividamente de quando a removeram para a chamada
eufemisticamente de “ala de recuperação”, para pacientes cujo fim está tão
próximo que não vale a pena removê-los para o centro de reabilitação em Fort
Kent. A função cardíaca caíra abaixo de 10% e ela lutava para respirar, a
despeito da máscara de oxigênio. Ele sentou-se com ela aquela noite, sozinho,
pois era tarde e os visitantes já tinham ido embora havia muito tempo. Quando
ela tivera a última parada cardíaca, ele estava segurando a mão dela. Naquele
momento, ela estava exausta e se mexeu só um pouquinho; então, o aperto de mão
se afrouxou e ela se foi tão silenciosamente quanto um pôr do sol ao anoitecer.
O alarme do monitor soou quase ao mesmo tempo em que a enfermeira de plantão
entrava, mas Luke alcançou o botão do monitor e, sem pestanejar, fez sinal para
a enfermeira sair. Tirou o estetoscópio do pescoço e verificou o pulso e a respiração.
Ela havia partido.
A enfermeira de plantão perguntou se
queria um minuto a sós e ele disse que sim. Passara a maior parte da semana na
unidade de terapia intensiva com a mãe e parecia-lhe inconcebível simplesmente
ir embora naquele momento. Então, sentou-se ao lado da cama e olhou para o
nada, com certeza não olhou para o corpo, e tentou pensar nas providências a
tomar. Ligar para os parentes; todos eram fazendeiros que viviam na parte sul
do condado... Ligar para o padre Lymon na igreja católica que Luke não
frequentava... Escolher um caixão... Precisava pensar em tantos detalhes... Ele
sabia o que precisava ser feito, pois passara por tudo isso apenas sete meses
antes, quando seu pai morrera. Mas a ideia de passar por tudo aquilo de novo
era desanimadora. Era em momentos como esse que sentia mais falta de sua
ex-mulher. Era muito bom poder ter Tricia, uma enfermeira, em ocasiões tão
difíceis. Ela não era do tipo sentimental; era prática até mesmo diante do
sofrimento.
Esse não era o momento de desejar que as
coisas fossem diferentes. Agora estava sozinho e teria que administrar.
Ruborizou de vergonha, sabendo que sua mãe queria que ele e Tricia ficassem
juntos; quantas reprimendas ouviu por tê-la deixado ir embora. Olhou para a
mulher morta, viu um reflexo de culpa.
Os olhos dela estavam abertos. Há um
minuto, estavam fechados. Sentiu seu peito apertar com esperança, mesmo sabendo
que isso não significava nada. Somente um impulso elétrico percorrendo os
nervos no momento em que as sinapses paravam de acontecer, como um carro
pipocando quando a última fumaça de gasolina passa pelo motor. Ele esticou as
mãos e fechou as pálpebras dela.
Elas se abriram naturalmente uma segunda
vez, como se a mãe dele estivesse acordando. Luke quase pulou para trás, mas
conseguiu controlar o medo. Não, medo não, surpresa. Em vez disso, inclinou-se,
colocou o estetoscópio e o pressionou sobre o peito dela. Silêncio, nenhum
fluxo de sangue nas veias, nenhum vestígio de respiração. Tomou seu pulso. Sem
pulso. Olhou para o relógio: já havia passado quinze minutos desde que
declarara sua mãe morta. Abaixou a mão fria da mãe, incapaz de parar de
observá-la. Jurava que ela estava olhando de volta, os olhos grudados nele.
E, então, a mão dela ergueu-se do lençol e
o alcançou. Esticou-se em direção a ele, palma para cima, implorando para que
ele a segurasse. Ele a segurou, chamou-a pelo nome, mas, assim que tocou sua mão, deixou-a cair. Estava
fria e sem vida. Luke deu cinco passos para trás da cama, esfregando a mão na
testa, imaginando se estava tendo alucinações. Quando se virou, os olhos dela
estavam fechados e, o corpo, imóvel. Ele mal podia respirar, seu coração batia
na garganta.
Levou três dias para ter
coragem de falar sobre o que acontecera com outro médico. Escolhera o velho
John Mueller, um clínico geral pragmático, conhecido por ajudar seu vizinho
quando as vacas pariam os bezerros. Mueller olhou-o desconfiado, como se suspeitasse
que Luke tivesse bebido.
— Mexer os dedos das mãos e dos pés, sim,
isso acontece — ele dissera —, mas quinze minutos depois? Movimento muscoloesqueletal?
— Mueller olhou para Luke novamente, como se o fato de estarem conversando
sobre aquilo já fosse motivo de chacota. — Você acha que viu porque queria ver.
Não queria que ela tivesse morrido.
Luke sabia que não era isso. Mas não
tocaria nesse assunto de novo, pelo menos não entre médicos.
— Além disso — Mueller quisera saber —,
que diferença faz? O corpo pode ter mexido um pouco; acha que ela estava
tentando dizer alguma coisa a você? Acredita naquela coisa de vida após a
morte?
Pensando nisso agora, quatros meses
depois, Luke ainda sentia um leve calafrio percorrendo os braços de cima a baixo.
Coloca o Sudoku na mesinha e passa os dedos pelos cabelos, tentando fazer a
confusão ir embora com uma massagem. A porta que dá para o vestiário se abre
numa fresta: é Judy.
— Joe está estacionando.
Luke sai sem a parca, para que o frio o
acorde. Observa Duchesne estacionar perto do meio-fio em uma grande SUV pintada
de branco e preto, uma insígnia do estado do Maine nas portas da frente e uma
discreta barra luminosa grudada no teto. Luke conhece Duchesne desde garoto.
Não estavam no mesmo ano escolar, mas o horário de algumas aulas coincidia na
escola. Luke olhava para aquela cara parecida comum furão, de olhos pequenos e
brilhantes e um nariz quase sinistro, por mais de vinte anos.
Com as mãos enfiadas debaixo das axilas,
para aquecê-las, Luke observa Duchesne abrir a porta de trás e pegar o braço de
uma prisioneira. Está curioso para ver a fora da lei. Talvez seja uma mulher
grande, de modos masculinos, com o rosto vermelho e lábios cortados. Então,
fica surpreso ao ver que a mulher é pequena e jovem. Poderia se passar por uma
adolescente. Esguia e de feições infantis, com um lindo rosto e uma vasta
cabeleira loura encaracolada, cabelos de querubim.
Olhando para a mulher (garota?), Luke
sente uma estranha fisgada, um formigamento atrás dos olhos. Seu pulso acelera,
parece que a conhece. Não sabe o nome, mas sente algo muito mais intenso. O que
é? Luke dá uma olhada com olhos semicerrados, estudando-a mais de perto. Será
que já a viu em algum lugar antes? Não, ele percebe que está equivocado. Enquanto
Duchesne puxa a mulher pelo braço, as mãos amarradas com algemas de plástico,
uma segunda viatura de polícia estaciona e um agente, Clay Henderson, sai e
acompanha a prisioneira para dentro da sala de emergência. Enquanto passam,
Luke vê que a camisa da prisioneira está encharcada, manchada de preto e exala
um odor conhecido de ferro e sal, o cheiro de sangue.
Duchesne anda em direção a Luke, apontando
com a cabeça para o casal.
— Encontramos ela desse jeito, caminhando
pela estrada em direção a Fort Kent.
— Sem casaco? Sem casaco nesse frio? Não
pode estar vagando há muito tempo.
— Sim. Escute, preciso que você me diga se
ela está machucada ou se posso levá-la de volta à delegacia e prendê-la.
Até onde conhecia os agentes da lei, Luke
sempre suspeitara que Duchesne fosse mão pesada; já vira muitos bêbados serem
trazidos com galos na cabeça ou escoriações no rosto. Essa garota, ela é só uma
criança, o que poderia ter feito?
— Por que ela vai ser presa? Por não usar
casaco com um frio desse?
Duchesne, desacostumado a ser motivo de
piada, lança um olhar cortante a Luke.
— Esta garota é uma assassina. Ela nos
disse que matou um homem a facadas e deixou o corpo na floresta.
Luke faz todos os procedimentos para
examinar a prisioneira, mas mal consegue pensar por causa da estranha pulsação
em sua cabeça. Acende uma pequena lanterna nos olhos dela (são do azul mais
claro que já viu, como duas pedras de gelo) para ver se as pupilas estão dilatadas.
Sua pele é viscosa, sua pulsação, baixa, e a respiração, irregular.
— Ela está muito pálida — diz para
Duschesne, enquanto se afastam da maca à qual a prisioneira fora amarrada pelos
pulsos. — Isso significa que ela está cianótica. Está entrando em choque.
—Ela está machucada? — pergunta Duchesne, desconfiado.
— Não necessariamente. Ela pode estar em
estado de trauma psicológico. Pode ser de uma briga. Talvez de lutar com esse
homem que ela diz que matou. Como sabe que não
foi autodefesa?
Duchesne, com as mãos na cintura, olha
para a prisioneira na maca como se pudesse escobrir a verdade só de olhar para ela. Muda
seu peso de um pé para o outro.
— Não sabemos de nada... ela não disse
muita coisa. Pode me dizer se está ferida? Porque se ela não estiver, vou
levá-la...
— Tenho que tirar a camisa, limpar o
sangue...
— Ande logo. Não posso ficar aqui a noite
toda. Deixei Boucher na floresta procurando pelo corpo.
Mesmo com a lua cheia, a floresta era
escura e vasta, e Luke sabe que o agente Boucher tem poucas chances de
encontrar, sozinho, um corpo. Luke pega na ponta de sua luva de látex.
— Então vá ajudar Boucher enquanto faço o
exame...
— Não posso deixar a prisioneira aqui.
— Pelo amor de Deus! — Luke diz,
balançando levemente a cabeça na direção da mulher. — Acho difícil ela me dominar
e fugir. Se está tão preocupado assim, diga para o Henderson ficar. — Os dois deram uma olhada rápida para Henderson.
O agente grandalhão está encostado no balcão, virando as páginas de uma antiga
Sports Illustrated deixada na sala de espera, um copo de café de máquina na
mão. Ele parece um urso de desenho animado e é um bonachão obtuso. — Ele não
será uma grande ajuda para você na floresta... Não vai acontecer nada. — Luke
disse, impaciente, dando as costas para o xerife como se o assunto já estivesse
encerrado. Ele sente o olhar de Duchesne em suas costas, e este não sabe se
deve argumentar com Luke. E, então, o xerife se afasta, caminhando em direção
às portas de correr.
— Fique aqui com a prisioneira! — ele
grita para Henderson enquanto enfia na cabeça o chapéu pesado e revestido de pele.
— Vou voltar para ajudar o Boucher. O idiota não écapaz de achar o próprio
traseiro nem com um mapa.
Luke e a enfermeira vão cuidar da mulher
amarrada à maca. Ele levanta um par de tesouras.
— Vou precisar cortar sua camisa —
avisou-a.
— Pode cortar. Está destruída — ela diz
com uma voz suave e um sotaque que Luke não consegue definir de onde é. A
camisa é obviamente cara, o tipo de roupa que se vê em revistas de moda e que
nunca veria alguém usando em St. Andrew.
— Você não é daqui, é? — Luke pergunta, um
quebra-gelo para ela relaxar.
Ela estuda seu rosto, avaliando se pode ou
não confiar nele, ou pelo menos é o que Luke imagina.
— Eu nasci aqui, na verdade. Há muito
tempo.
Luke dá uma fungada.
— Talvez bastante tempo para você. Se
tivesse nascido aqui, eu saberia. Vivo nessa região quase minha vida toda. Qual
é o seu nome?
Ela não cai na armadilha.
— Você não me conhece — diz ela, sem
rodeios.
Por alguns instantes, há somente o som do
tecido molhado sendo cortado com dificuldade, a pontinha da tesoura se
movimentando preguiçosamente pelo material encharcado. Feito isso, Luke se
afasta para deixar Judy limpar a garota com gaze embebida em água morna. As
manchas vermelhas de sangue se diluem, revelando um torso pálido e magro sem
nenhum arranhão. A enfermeira deixa cair ruidosamente a bacia de metal com as
gazes e sai apressadamente da sala de exame, como se soubesse, desde o início, que
não encontrariam nada; mais uma vez, Luke tinha provado sua incompetência.
Ele desvia os olhos enquanto coloca uma
folha de papel sobre o torso nu da garota.
— Teria dito que não estava ferida se
tivesse perguntado — ela disse a Luke num sussurro.
— Mas não disse nada ao xerife! — Luke
falou, alcançando um banquinho.
— Não. Mas teria dito a você. — Acenou com
a cabeça para o médico. — Tem um cigarro? Estou morrendo de vontade de fumar.
— Me desculpe, não tenho. Eu não fumo —
Luke respondeu.
A garota olha para ele, aqueles olhos
azuis mapeando seu rosto.
— Você parou um tempo atrás, mas começou
de novo.
Não tiro sua razão, dado tudo pelo que
passou ultimamente.
Mas tem dois cigarros no seu jaleco, se
não estou enganada.
Ele enfia a mão no bolso, por instinto, e
sente o toque de papel dos cigarros bem onde os havia deixado. Foi só um golpe
de sorte ou ela realmente os viu em seu bolso?
E o que ela queria dizer com “tudo pelo
que passou ultimamente”? Ela está fingindo ler a mente dele, tentando entrar em
sua cabeça como faria uma garota esperta que está em apuros. A verdade é que
seus problemas estavam estampados em sua cara ultimamente. Ele ainda não
encontrara uma maneira de consertar sua vida; seus problemas estavam todos
interligados. Não sabia nem por onde começar a resolvê-los.
— É proibido fumar no prédio e, caso tenha
esquecido, você está amarrada numa maca. — Luke aperta a ponteira da caneta e
pega uma prancheta. — Estamos com falta de pessoal hoje, então terei que pegar
algumas informações sobre você para os arquivos do hospital. Nome?
Ela observa a prancheta, hesitante.
— Prefiro não dizer.
— Por quê? É uma fugitiva? É por isso que
não quer me falar o seu nome? — Ele a estuda: ela está tensa, cautelosa, mas
controlada. Ele já estivera com pacientes envolvidos em mortes acidentais e,
geralmente, ficavam histéricos: chorando, tremendo, gritando. Essa jovem mulher
está tremendo levemente embaixo da folha de papel e mexe as pernas nervosamente,
mas, pelo seu rosto, Luke pode afirmar que ela está em choque.
Da mesma forma, ele sente que ela está
baixando a guarda; sente uma química entre os dois, como se ela quisesse que
ele perguntasse sobre o fato terrível que acontecera na floresta.
— Quer me contar o que aconteceu esta
noite? — ele diz, rolando o banquinho para mais perto da maca. — Você estava
viajando de carona? Talvez tenha pegado carona com alguém, o homem da
floresta... Ele atacou você, você se defendeu?
Ela suspira e pressiona a cabeça no
travesseiro, olhando para o teto.
— Não foi nada disso. Nós nos conhecíamos.
Viemos juntos para a cidade. Ele — ela para, gaguejando —, ele me pediu para
ajudá-lo a morrer.
— Eutanásia? Ele estava morrendo? Câncer?
— Luke fica desconfiado. Quem quer se matar geralmente escolhe algo silencioso
e certeiro: veneno, pílulas, um motor de carro ligado na garagem fechada ou gás
escapando do forno. Não pede para ser esfaqueado até a morte. Se esse amigo
realmente quisesse morrer, poderia simplesmente ter ficado sentado sob as
estrelas a noite toda, até congelar. Ele olha para a mulher, tremendo debaixo
da folha de papel.
— Deixe-me pegar um avental do hospital e
um cobertor.
Você deve estar com frio.
— Obrigada — ela responde, baixando o
olhar.
Ele volta com um avental de flanela
desbotado de tanto lavar, cor-de-rosa, e um cobertor azul de acrílico, cheio de
bolinhas, azul-bebê. Cores de maternidade. Ele olha para as mãos dela, presas à
maca com amarras de plástico.
— Venha, vamos fazer uma mão de cada vez —
Luke diz, desfazendo a amarra da mão mais próxima ao aparador onde os
instrumentos de exames são colocados: pinças médicas, tesouras sujas de sangue,
bisturi.
Como um azougue, ela agarra o bisturi, sua
mão fina se fechando em volta dele. Ela aponta o bisturi para ele, olhos arregalados,
narinas vermelhas e abertas.
— Vá com calma — pede Luke, levantando-se
do banquinho e indo para trás, para fora do alcance do braço dela.
— Tem um agente bem ali no corredor. Se eu
o chamar, está tudo terminado, entende? Você não pode atingir nós dois com essa
faquinha. Então, por que não coloca de lado o bisturi...
— Não o chame — pediu, mas o braço
continuava esticado. — Preciso que você me escute.
— Estou escutando. — A maca está entre
Luke e a porta.
Ela consegue liberar a outra mão enquanto
ele atravessa a sala.
— Preciso de sua ajuda. Não posso deixar
que ele me prenda. Você tem que me ajudar a fugir.
— Fugir? — De repente, Luke não está
preocupado que a mulher com o bisturi possa machucá-lo. Está com vergonha por
ter baixado a guarda, permitindo que ela controlasse a situação. — Você está
maluca? Não vou ajudar você a fugir.
— Escute...
— Você matou alguém esta noite. Você mesma
disse isso.
— Não foi assassinato. Ele queria morrer,
já falei a você.
— E ele quis morrer em St. Andrew, pois
ele também cresceu aqui?
— Sim — ela confirmou, um pouco aliviada.
— Então me diga quem ele é. Talvez eu o
conheça...
Ela balança a cabeça.
— Já falei, você não nos conhece. Ninguém
daqui nos conhece.
— Não tenha tanta certeza. Talvez alguns
de seus parentes... — A obstinação de Luke vem à tona quando ele está zangado.
— Minha família não vive em St. Andrew há
muito, muito tempo — ela soa cansada. Então, fala secamente: — Você acha que me
conhece, não é? Ok, meu nome é McIlvrae.
Conhece este nome? E o homem na floresta?
O nome dele é St. Andrew.
— St. Andrew, como a cidade? — Luke
pergunta.
— Exatamente, como a cidade — ela
responde, quase irritada.
Luke sente um borbulhar esquisito atrás de
seus olhos.
Não exatamente um reconhecimento... onde
ele já viu este nome “McIlvrae”? Sabe que já viu ou ouviu em algum lugar, mas
não se lembra de jeito nenhum.
— Não existe um St. Andrew nesta cidade
há, humm, pelo menos cem anos — diz Luke, trivialmente, atormentado por ser
repreendido por uma garota fingindo ter nascido ali, mentindo sobre um fato sem
a menor importância e que não lhe fará nenhum bem. — Desde a Guerra Civil. Ou,
pelo menos, é isso que me disseram.
Ela aponta o bisturi para ele para chamar
a atenção.
— Veja bem, não que eu seja perigosa, mas,
se você me ajudar a fugir, não vou machucar mais ninguém. — Ela fala como se
fosse ele quem não tivesse razão. — Deixa eu mostrar uma coisa para você.
Então, sem avisar, ela aponta o bisturi
para si e faz um corte no peito. Uma linha larga e comprida, que vem do seio esquerdo
e percorre toda a área da costela embaixo de seu seio direito. Luke fica
petrificado enquanto uma linha vemelha surge em sua pele branca. O sangue jorra
do corte, os tecidos carnudos avermelhados começam a sair pela abertura.
— Oh, meu Deus! — ele diz. “Que
diabos há de errado com essa garota?! Será que ela é louca? Será que tem algum tipo
de desejo de morte?” — Ele começa a caminhar em direção à maca.
— Fique longe! — ela grita, golpeando com
o bisturi na direção dele novamente. — Só olhe. Preste atenção!
Ela empina o torso, braços abertos, como
se quisesse oferecer-lhe uma visão melhor, mas Luke consegue enxergar bem,
apenas não consegue acreditar no que está vendo. Os dois lados do corte estão
deslizando um em direção ao outro, como o rebento de uma planta, juntando-se,
entrelaçando-se. O corte para de sangrar e começa a cicatrizar. Durante todo o
processo, a garota respirava com dificuldade, mas não demonstrava nenhum sinal
de dor.
Luke não tem certeza se seus pés estão no
chão. Está assistindo ao impossível, ao impossível! O que deve pensar?
Tinha enlouquecido ou estava sonhando?
Estava dormindo no sofá do vestiário dos médicos? O que quer que tenha visto,
sua mente se recusa a aceitar e começa a bloquear.
— Que diabos... — ele diz quase num
sussurro. Volta a respirar, ofegante, seu rosto vermelho. Sente que vai vomitar.
— Não chame o policial. Eu explicarei tudo
a você, juro, só não grite para pedir ajuda, ok?
Enquanto Luke tenta se equilibrar sobre as
pernas, percebe que a Emergência está totalmente quieta. Será que tem alguém
para ouvi-lo caso decida gritar? Onde está Judy, onde está o agente? É como se
a bruxa da Bela Adormecida tivesse entrado no pavilhão e jogado um feitiço,
colocando todos para dormir. Do lado de fora da sala de exames está escuro, as
luzes fracas, como de costume, para o
turno da noite. Os barulhos habituais (a risada vinda de um programa de TV no
fundo do corredor e o tilintar metálico de dentro da máquina de refrigerante)
tinham sumido. Não há o zunido da enceradeira trabalhando sem parar pelos
corredores vazios. É só Luke, sua paciente e o barulho abafado do vento batendo
na lateral do hospital, tentando entrar.
— O que foi isso? Como fez isso? —
perguntou Luke, incapaz de disfarçar o horror em sua voz. Ele desliza de novo sobre
o banquinho para evitar despencar no chão. — O que você é? A última pergunta
parece atingi-la como um soco no estômago. Ela deixa a cabeça cair, os cachos
enrolados e sedosos cobrindo o rosto.
— Isso, bem, isso é algo que não posso lhe
contar. Não sei mais o que eu sou. Não faço deia.
Isso é impossível! Coisas desse tipo não
acontecem. Não há explicação... O que ela é: um mutante? Feita de material sintético?
Um monstro?
E, ainda sim, ela parece normal, pensa o
médico, à medida que seu batimento cardíaco se acelera novamente e o sangue
lateja em seus ouvidos. O chão de linóleo começa a se mexer sob seus pés.
— Nós voltamos aqui, ele e eu, porque
sentimos falta do lugar. Sabíamos que tudo estaria diferente, que todos já teriam
morrido, mas tínhamos saudade do que tivemos antes — relatou a jovem com
melancolia, olhando além do médico, falando para ninguém em particular.
A sensação que teve assim que a vira esta
noite, o formigamento, o borbulho, arcos entre eles, finos e elétricos. Ele precisa
saber.
— Ok — ele diz, tremendo, mãos sobre os
joelhos. — Isso é loucura, mas vá em frente. Estou ouvindo.
Ela respira profundamente e fecha os olhos
por um momento, como se estivesse se preparando para mergulhar. E, então,
começa a falar.
REFERÊNCIAS:
Informações:
Comentários
Postar um comentário